quarta-feira, 20 de julho de 2011

Ache a morte antes que ela ache você

 O título desta postagem talvez devesse merecer reflexões altamente filosóficas, mas me contento com a letra desta música tão perfeitamente antiga e atual, do querido Raul Seixas.

Uma atenção especial ao parágrafo  destacado (vermelho).
Eu sempre me identifiquei com a poesia desta música. Todas as vezes que a ouço, imagino uma multidão de pessoas preparando o cenário da vida , cenário este, muito importante para a apresentação do espetáculo. Mas cadê o espetáculo?

 Imaginemos  uma peça de teatro. Chegamos, nos acomodamos nas cadeiras e aguardamos com certa expectativa os artistas atuarem. Mas,   apesar do cenário se encontrar perfeito ele ainda esta sendo arrumado, mexido e remexido, o tempo passa e , alguns nem percebem, mas  o espetáculo não começa.

  Prepare o seu cenário, mas não permita que ele roube toda a sua atenção.   Sempre desejei ser uma "insatisfeita", como o Raul, pois, eu que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar...  É assim que sempre percebi a vida, buscando não dar importância demasiada  ao meu cenário para não perder o meu espetáculo.

OURO DE TOLO ( RAUL SEIXAS)
Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês...
Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso
Na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73...
Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado
Fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa...
Ah!
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...
Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado...
Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Prá ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos...
Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco...
É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal...
E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social...
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...
Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...


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